Quando se reserva um bilhete de avião e se escolhe o assento, a numeração dos lugares às vezes reserva surpresas. Em algumas aeronaves, a letra B simplesmente não existe no plano de cabine. Não há assento retirado, nem fantasma mecânico: a letra foi excluída intencionalmente do esquema de numeração. Esse fenômeno, longe de ser anedótico, afeta várias companhias e diversas famílias de aeronaves ao redor do mundo.
Convenções de letras segundo a configuração da cabine
A confusão vem de um postulado simples: cada letra deveria corresponder a um assento físico. A realidade técnica é mais sutil. As companhias aéreas e os fabricantes utilizam convenções de letras que dependem do número de assentos por fileira, não de um alfabeto contínuo.
| Configuração | Lado esquerdo | Centro | Lado direito | Letras ausentes |
|---|---|---|---|---|
| 3-3 (monocorredor clássico) | A B C | – | D E F | G, H, J, K |
| 3-3 (convenção alternativa) | A C D | – | D E F | B, G, H, J, K |
| 2-2 (regional turboélice) | A C | – | D F | B, E, G, H, J, K |
| 3-3-3 (grande porte econômico) | A B C | D E F | G H J | I, K (variável) |
| 2-3-2 (grande porte) | A C | D E F | H K | B, G, I, J |
Esta tabela ilustra um ponto muitas vezes mal compreendido: a letra B desaparece assim que a fileira passa de três assentos ao lado da janela. Em uma aeronave na configuração 2-2, como o Dash 8-400 da Air Canada, os assentos à esquerda têm as letras A e C, enquanto os da direita têm D e F. A letra B nunca existiu nessas aeronaves.
Para entender em detalhes por que falta o assento B em um avião, é preciso observar a lógica que fundamenta essa numeração: a letra A sempre designa a janela esquerda, a letra C sempre o corredor esquerdo. Quando há apenas dois assentos desse lado, B não tem mais lugar entre os dois.

Padronização de frota: o caso do Comac C919
O exemplo mais recente e radical dessa lógica vem da China. No Comac C919 operado pela China Eastern, a cabine econômica é rotulada A B C à esquerda e J K L à direita. As letras D, E, F, G e H foram removidas de toda a cabine, embora a aeronave tenha seis assentos por fileira.
Essa escolha não tem nada de supersticiosa. Trata-se de uma convenção de numeração harmonizada na frota. O objetivo é evitar qualquer confusão entre diferentes tipos de aeronaves operadas pela mesma companhia. Um passageiro que viaja regularmente sabe que a letra A está na janela esquerda, independentemente do tamanho do avião.
Esse caso ilustra uma mudança: a numeração não descreve mais a cabine física, mas um padrão de frota. A mesma letra B pode designar um assento central em um monocorredor e não existir de forma alguma em um grande porte da mesma companhia. É uma escolha assumida de coerência interna, não um erro de plano.
Fileiras ausentes e superstições aéreas
A ausência de certas letras às vezes é acompanhada pela falta de fileiras inteiras. Várias companhias eliminam a fileira 13, considerada azarada na cultura ocidental. A fileira 17 desaparece em algumas companhias italianas e brasileiras, pois o número 17 traz má sorte nessas culturas.
- Fileira 13 ausente na Lufthansa, Air France (em algumas aeronaves), Ryanair e muitas companhias europeias
- Fileira 17 removida em alguns transportadores italianos e brasileiros por razões culturais
- Fileira 4 às vezes ausente em companhias asiáticas, pois o número 4 está associado à morte em chinês, japonês e coreano
Essas escolhas não alteram o número total de assentos no avião. As fileiras são simplesmente renumeradas pulando o número em questão. Uma aeronave de 30 fileiras exibirá 31 números se a fileira 13 tiver sido retirada do plano.
Letras e fileiras: duas lógicas distintas
A confusão entre letras ausentes e fileiras ausentes alimenta o mistério. As letras ausentes (B, I, às vezes D ou E) pertencem a uma lógica técnica de legibilidade e padronização. As fileiras ausentes pertencem ao marketing e à sensibilidade cultural. Os dois fenômenos não têm a mesma causa, mesmo que produzam o mesmo efeito visual em um plano de cabine.

Assento B em avião: o que isso muda para o passageiro
O impacto concreto para um viajante é limitado, mas real no momento da reserva. Em uma aeronave 2-2, procurar o assento B é inútil: ele não aparecerá no plano. Em um monocorredor 3-3 com a convenção clássica, o B existe e corresponde ao assento central esquerdo, preso entre a janela e o corredor.
O problema surge quando uma companhia opera vários tipos de aeronaves na mesma rota. Um voo reservado em um A320 (configuração 3-3, assento B existente) pode ser operado no último momento por uma aeronave menor em 2-2. O assento B inicialmente atribuído desaparece e o passageiro é realocado.
Para famílias viajando com crianças pequenas, essa sutileza merece atenção. Reservar três assentos lado a lado (A, B, C) em um monocorredor garante que todos permaneçam juntos. Em uma aeronave 2-2, essa configuração não existe: será necessário se dividir em dois pares.
A letra B não é um mistério nem uma anomalia. É o reflexo de um sistema de numeração projetado para a coerência operacional, onde cada letra mantém uma posição fixa (janela, centro, corredor) independentemente da largura da cabine. Quando o assento do meio não existe fisicamente, sua letra desaparece com ele.



