Quais são os direitos do inquilino sem contrato em relação a uma locação não declarada?

Um inquilino que ocupa uma moradia sem contrato escrito, alugada por um proprietário que não declara a renda de aluguel, possui as mesmas proteções que um inquilino convencional? A resposta depende de vários mecanismos jurídicos distintos, às vezes contraditórios em seus efeitos práticos. Este artigo compara a situação do inquilino com contrato escrito e a do inquilino sem contrato, e analisa os mecanismos concretos que este último possui diante de uma locação não declarada.

Contrato escrito, contrato verbal e locação não declarada: tabela comparativa das proteções

A lei de 6 de julho de 1989 exige um contrato escrito para toda locação destinada à residência principal. Desde a lei nº 2024-322 de 9 de abril de 2024, a recusa em estabelecer um contrato conforme expõe o locador a um ano de prisão e 20.000 euros de multa. A jurisprudência, no entanto, reconhece a validade do contrato verbal se houver provas de ocupação e pagamento.

A tabela abaixo sintetiza as diferenças de proteção conforme a forma do contrato e o status fiscal da locação.

Critério Contrato escrito declarado Contrato verbal (não escrito) Locação não declarada
Validade jurídica do contrato Plena Reconhecida se houver provas de pagamento O contrato permanece válido, a irregularidade fiscal é do locador
Direito à permanência no imóvel Sim, com aviso legal Sim, mesmas condições Sim, inalterado
Obrigação de moradia digna Sim (lei 1989, art. 6) Sim Sim
Revisão anual do aluguel Possível se houver cláusula escrita Impossível (sem cláusula) Impossível
Depósito de garantia Regulado pelo contrato Difícil de provar Difícil de provar
APL paga ao locador Sim Sim se o contrato for regularizado Pagamento direto ao locador comprometido em área com permissão para alugar
Sanções para o locador Nenhuma específica Multa de até 20.000 € Revisão fiscal, multas, penalidades

Os direitos do inquilino sem contrato não desaparecem devido à irregularidade do proprietário. O artigo L.635-8 do Código da Construção e da Habitação especifica que a locação sem autorização é “sem efeito sobre o contrato”.

Mulher inquilina diante da porta de um locador segurando documentos jurídicos em um edifício antigo

Prova do contrato verbal: o que o inquilino deve reunir

Sem contrato escrito, o ônus da prova recai sobre o inquilino que deseja fazer valer seus direitos. A Corte de Cassação confirmou várias vezes que transferências regulares e uma ocupação contínua são suficientes para estabelecer a existência de um contrato verbal.

Os elementos admissíveis diante de um tribunal são precisos:

  • Extratos bancários mostrando transferências mensais regulares ao proprietário, com uma descrição identificável (mesmo uma simples transferência recorrente constitui um indício)
  • Trocas escritas (SMS, e-mails, mensagens em um aplicativo) mencionando a moradia, o aluguel ou as condições de ocupação
  • Recibos de aluguel, mesmo informais, ou recibos manuscritos assinados pelo locador
  • Atestados de vizinhos, correspondência recebida no endereço da moradia, contas de energia ou internet em nome do inquilino

O inquilino que possui essas provas é considerado como tendo um contrato de locação no sentido da lei de 1989. Ele pode recorrer à comissão departamental de conciliação ou ao tribunal judicial.

Ausência de provas: uma situação que fragiliza ambas as partes

Se o inquilino paga em dinheiro sem recibo, a demonstração se torna muito mais complexa. O pagamento em dinheiro sem registro escrito priva o inquilino de seu principal recurso jurídico. Nesse caso, o proprietário também não pode provar facilmente uma inadimplência para iniciar um processo de despejo.

Esse impasse raramente beneficia o inquilino a longo prazo. Sem prova de pagamento, é impossível solicitar o reembolso de um depósito de garantia ou contestar um valor de aluguel.

Moradia indigna e locação clandestina: um recurso que permanece aberto

A característica não declarada da locação não elimina a obrigação do proprietário de fornecer uma moradia digna. O artigo 6 da lei de 6 de julho de 1989 se aplica independentemente do status fiscal da locação.

Um inquilino que ocupa uma moradia insalubre, sem aquecimento funcional ou apresentando riscos à saúde pode recorrer ao tribunal mesmo que nenhum contrato escrito exista. A irregularidade administrativa do locador nunca suspende sua obrigação de decência.

O proprietário que tenta se valer da ausência de contrato para escapar de suas obrigações de reparo se encontra em uma posição desfavorável. O juiz constatará a existência de um contrato verbal e aplicará as mesmas regras que com um contrato escrito.

Permissão para alugar e consequências nas ajudas ao aluguel

Nas comunas que instituíram uma permissão para alugar, o não cumprimento dessa obrigação pelo proprietário pode ter uma consequência indireta para o inquilino: o pagamento do APL diretamente ao locador pode ser bloqueado. O inquilino mantém seu direito à ajuda, mas deve recebê-la ele mesmo, o que complica a gestão do aluguel.

Essa situação cria uma pressão adicional sobre o proprietário, que perde um mecanismo de segurança de sua renda de aluguel.

Regularização do contrato e interesse do inquilino em agir

O inquilino tem a possibilidade de solicitar ao proprietário a redação de um contrato escrito conforme a lei. Esse direito existe a qualquer momento da relação locativa. Se o locador recusar, o inquilino pode recorrer ao tribunal para obter a formalização do contrato.

A regularização apresenta vantagens concretas para o inquilino:

  • Acesso facilitado às ajudas ao aluguel, incluindo o pagamento direto do APL ao locador
  • Regulamentação do depósito de garantia e sua restituição ao final do contrato
  • Possibilidade de contestar um aviso de rescisão não conforme aos prazos legais de aviso prévio
  • Proteção reforçada em caso de venda da moradia (direito de preferência)

Para o proprietário, regularizar a situação permite evitar as sanções penais introduzidas pela lei de 2024 e recuperar a possibilidade de aplicar uma cláusula resolutiva em caso de inadimplência.

Dois inquilinos consultando documentos jurídicos em um centro de ajuda ao aluguel

O inquilino sem contrato diante de uma locação não declarada mantém todas as proteções previstas pela lei de 1989, desde que possa provar sua ocupação e seus pagamentos. A irregularidade fiscal ou administrativa do proprietário não retira nenhum direito do inquilino, mas complica os trâmites de ambas as partes. Constituir um dossiê de provas sólido continua a ser a primeira ação a ser empreendida por qualquer ocupante nessa situação.

Quais são os direitos do inquilino sem contrato em relação a uma locação não declarada?